Como uma sombra, a sensação de cansaço caminha a passos largos em todas as esferas da vida. Atravessados pela cobrança de produtividade no trabalho, no espaço doméstico e pelas demandas pessoais, alimentamos uma longa lista de tarefas a ocupar até mesmo os raros momentos de lazer e ócio. O resultado é um número cada vez maior de pessoas com quadros de ansiedade, depressão e burnout, síndrome que entrou para a Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS), em janeiro deste ano. A pandemia contribuiu para esse cenário e o Brasil se tornou o segundo país do mundo que mais busca informações sobre ansiedade no Google. Afinal, o que isso quer dizer sobre a sociedade contemporânea? E quais formas práticas que visam qualidade de vida e bem-estar podem virar essa chave?
Em Sociedade do Cansaço (Vozes, 2015), o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, considerado um dos grandes pensadores da atualidade, reflete sobre o fato de que instituições políticas e empresariais mudaram o sistema de punição, hierarquia e combate ao concorrente pelas positividades do estímulo, eficiência e reconhecimento social, e superação das próprias limitações. Ou seja, em um momento da história em que poderíamos trabalhar menos e ganhar mais, a ideologia da positividade conduz as pessoas a trabalhar e a se cobrar mais resultados. Mesmo assim, elas recebem menos e adoecem.
“Byung-Chul Han faz uma análise desse cenário do capitalismo contemporâneo articulado a toda problemática das redes sociais onde a máxima vigilância, e ao mesmo tempo a máxima visibilidade, geram esse mecanismo de coerção que faz com que o indivíduo use sua própria liberdade de maneira paradoxal. Onde ele, como ‘empreendedor de si mesmo’, está sempre procurando maximizar seus resultados em todas as esferas da vida”, observa Leandro Chevitarese, mestre em filosofia e psicossociologia, professor associado de Filosofia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, no Departamento de Educação e Sociedade.
Na atual sociedade do desempenho, como descreveu o filósofo sul-coreano, os indivíduos se cobram não só metas cada vez mais inatingíveis como também a capacidade de executar múltiplas tarefas simultaneamente para ser visto e validado pelo olhar do outro. “Importante enfatizar que muito deste cenário da sociedade do desempenho deve-se à atual dinâmica do capitalismo em sua articulação com nossa imersão no mundo digital e nas mídias sociais, que favorecem a hipercomunicação e a hipervigilância: elementos que contribuem para o esgotamento e o cansaço”, destaca Chevitarese.
Consequentemente, fica evidente uma desconexão com as próprias necessidades de pausa e de práticas que visam a manutenção da saúde física, mental, emocional e espiritual. Deixa-se de ouvir, inclusive, o próprio relógio biológico que aponta, por exemplo, para a importância vital do sono. “Boa parte dos problemas de saúde nas grandes metrópoles tem a ver com o sono de baixa qualidade. É fator de risco para diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e, no limite, Mal de Alzheimer. O sono é um momento de restauração fisiológica do corpo inteiro, não só do cérebro. É também o momento em que as memórias são processadas”, já disse o neurocientista Sidarta Ribeiro, à Revista E [Leia Encontros publicado na edição nº 285, em julho de 2020].
Talvez o que esteja em xeque nesse cenário seja a possibilidade de uma outra experiência do tempo, segundo o filósofo e professor Chevitarese. “Uma outra experiência em que sejamos capazes de nos demorarmos junto às coisas, de exercitarmos um tipo de contemplação reflexiva que não nos deixe sempre estar capturados pelo pensamento calculativo de resultados, metas e objetivos”, reflete.
RECONEXÃO COM O MEIO
Para nadar na contracorrente dessa forma hiperprodutiva e hipervigilante de viver e conviver, torna-se imprescindível o investimento em qualidade de vida. Conceito este que a Organização Mundial da Saúde (OMS) define como “a percepção do indivíduo de sua inserção na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. Essa busca por qualidade de vida ainda envolve a consciência do lugar onde estamos inseridos e nossa relação como parte integrante do meio ambiente.
Pensando num caminho de reconexão com áreas verdes no espaço urbano, a organização não-governamental Floresta Cultural realiza ações que buscam a preservação de uma área de 257 mil metros quadrados na cidade de Sorocaba (SP), a fim de transformá-la em uma Floresta Municipal. Dentre diversas vivências voltadas para todos os públicos, de crianças a idosos, está o Banho de Floresta, criado em 2021. Prática oriental milenar que consta na legislação japonesa para promoção de saúde e bem-estar, no banho de floresta a pessoa dispõe de um tempo para estar presente em espaços verdes, matas ou florestas, aceitando o convite para desacelerar e receber novos estímulos e benefícios à mente e ao corpo.





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